Petróleo Pode Chegar a US$ 140 no Outono e Pressionar Inflação na Espanha
Fechamento prolongado do Estreito de Ormuz ameaça elevar custo de combustível e energia no país com efeito direto no bolso de quem vive aqui
MADRI – Analistas alertam que o preço do barril de petróleo pode alcançar US$ 140 ainda no outono de 2026, caso o fechamento do Estreito de Ormuz se prolongue além das semanas iniciais. Para a Espanha, um dos países da Europa mais dependentes de importações de energia, o cenário representa risco concreto de nova espiral inflacionária, com impacto direto no custo do combustível, da eletricidade e dos alimentos.
Para o brasileiro que vive ou planeja se mudar para a Espanha, o alerta é simples: se a projeção se confirmar, o custo de vida no país pode subir de forma relevante nos próximos meses, especialmente em transporte e contas de energia.
O que é o Estreito de Ormuz e por que a Espanha se preocupa
O Estreito de Ormuz é uma faixa de mar de pouco mais de 33 quilômetros de largura, localizada entre o Irã e Omã. Por ali passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo, incluindo grande parte do que abastece a Europa. Qualquer interrupção no tráfego marítimo por esse corredor tem efeito imediato sobre a oferta global de petróleo bruto e derivados.
A Espanha importa praticamente a totalidade do petróleo que consome, dados históricos do setor energético espanhol indicam que mais de 99% do petróleo utilizado no país vem do exterior. Ao contrário de nações como Noruega ou Reino Unido, que contam com reservas próprias no Mar do Norte, a Espanha não tem produção doméstica relevante. Isso significa que qualquer choque externo no preço do petróleo se transmite rapidamente para os postos de combustível, as tarifas de gás e as contas de luz.
De onde vem a projeção de US$ 140
A cifra de US$ 140 por barril, reportada pelo jornal econômico Expansión, parte de análises que consideram um cenário adverso: bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz por mais de quatro semanas, com redução significativa da oferta global. O barril do tipo Brent, referência usada na Europa, já havia operado acima de US$ 100 em momentos de tensão geopolítica anterior, como durante a invasão russa da Ucrânia em 2022.
Para efeito de comparação: quando o petróleo disparou naquele ano, a inflação espanhola ultrapassou 10%, o maior nível em décadas, segundo o Instituto Nacional de Estadística (INE). O pico foi registrado em julho de 2022, com 10,8% de variação anual nos preços ao consumidor.
A OPEP, o cartel dos países produtores de petróleo, poderia em tese compensar parte da escassez aumentando a produção. Mas analistas apontam que a capacidade ociosa disponível hoje é limitada, o que reduziria a margem de resposta do cartel em um cenário de choque agudo.
O que muda na vida de quem mora na Espanha
O efeito mais imediato de uma alta expressiva no petróleo seria sentido nos postos de gasolina. O combustível já representa uma parcela relevante do orçamento familiar espanhol, especialmente para quem mora fora das grandes cidades e depende do carro para trabalhar.
Em segundo lugar, o encarecimento do petróleo pressiona a tarifa de gás natural, outro insumo que a Espanha importa em larga escala, e, por consequência, a conta de luz. A eletricidade na Espanha está parcialmente indexada ao preço do gás no mercado europeu, embora o país tenha negociado em 2022 um mecanismo temporário com a União Europeia, o chamado Iberian Exception, para limitar essa influência. Esse mecanismo, contudo, não tem caráter permanente, e sua eventual reativação dependeria de nova negociação com Bruxelas.
Por fim, o encarecimento do frete internacional, que usa petróleo como principal insumo, tende a pressionar os preços de alimentos industrializados e bens importados, ampliando o impacto inflacionário para além da bomba de gasolina.
O que o governo espanhol pode fazer
O governo do presidente Pedro Sánchez tem instrumentos limitados para conter um choque externo de oferta. Entre as opções disponíveis estão a redução temporária de impostos sobre combustíveis, medida adotada em 2022 e que custou bilhões ao erário, o acionamento de reservas estratégicas nacionais e a articulação com a Agência Internacional de Energia (AIE) para liberação de estoques coordenados entre países.
O Banco Central Europeu (BCE), por sua vez, enfrentaria uma equação delicada: se a inflação voltar a subir por causa da energia, a pressão por novas altas de juros retorna, o que encarece o crédito imobiliário e empresarial em toda a zona do euro.
O que acompanhar nos próximos meses
O cenário ainda é de incerteza. Muito dependerá da duração efetiva da tensão no Estreito de Ormuz e de como os mercados internacionais reagirão semana a semana. Para quem está na Espanha ou planeja se mudar nos próximos meses, vale monitorar três variáveis: o preço do barril Brent, a inflação mensal medida pelo INE e eventuais anúncios do governo espanhol sobre medidas de contenção de preços, que, se confirmados, sinalizarão o tamanho real do problema.



