Trump Declara Espanha ‘Redimida’ e Ibex 35 Sobe com Recuo na Crise Comercial
Após ameaça de suspensão total do comércio, declaração do presidente americano alivia tensão e impulsiona a bolsa espanhola
MADRI – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (9) que a Espanha “se redimiu por completo” após o governo de Pedro Sánchez aceitar ampliar seus compromissos financeiros com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A declaração reverteu, ao menos temporariamente, a ameaça de suspensão total do comércio bilateral anunciada por Washington dias antes e provocou alta imediata no Ibex 35, principal índice da bolsa de valores espanhola.
A virada é diretamente relevante para brasileiros que vivem na Espanha, têm negócios ligados ao mercado espanhol ou mantêm investimentos atrelados à economia do país: a instabilidade nas relações comerciais entre Madri e Washington vinha pressionando ativos espanhóis e gerando incerteza sobre setores exportadores que empregam parte significativa da força de trabalho local.
O que Trump disse e o que mudou
Segundo informações divulgadas pela agência EFE e pelo jornal econômico Expansión, Trump fez a declaração em sua rede social Truth Social, sinalizando que a Espanha teria concordado em realizar aportes financeiros substanciais à OTAN, compromisso que Washington vinha exigindo de aliados europeus considerados abaixo da meta de 2% do PIB destinados à defesa.
A Espanha historicamente ficou abaixo desse patamar. O governo Sánchez acelerou nos últimos meses os planos de adequação ao índice exigido pela aliança militar, mas a postura foi considerada insuficiente por setores da administração Trump, que chegou a sinalizar retaliação comercial como instrumento de pressão diplomática.
Com o recuo de Trump, o Ibex 35 reagiu positivamente ainda durante o pregão desta quarta-feira, refletindo o alívio dos investidores diante do afastamento do cenário mais extremo, o de uma ruptura comercial entre as duas economias.
A crise que antecedeu a virada
A ameaça de suspensão do comércio entre EUA e Espanha havia sido anunciada nos dias anteriores como parte de uma escalada de pressão da administração Trump sobre países da OTAN que não cumpriam a meta de gastos com defesa. A Espanha foi citada nominalmente, o que gerou reação imediata dos mercados e do governo espanhol.
Sánchez respondeu de forma dura publicamente, mas a diplomacia seguiu em movimento nos bastidores. O resultado foi o anúncio de novos compromissos financeiros com a aliança, suficientes, ao menos por ora, para que Trump declarasse o episódio encerrado com a Espanha “redimida”.
O episódio também gerou reação interna no campo conservador espanhol. A Fundação para Análise e Estudos Sociais (FAES, na sigla em espanhol), ligada ao ex-presidente José María Aznar, divulgou nota crítica ao comportamento de Trump durante a crise, usando linguagem incomum para uma fundação de perfil institucional, sinal de que a tensão gerada pelo episódio deixou marcas mesmo entre aliados ideológicos do governo republicano americano. A existência e o teor exato da nota estão sendo verificados pela redação.
O contexto para o brasileiro
Para quem vive na Espanha ou planeja se mudar para o país, o episódio ilustra um risco crescente no ambiente econômico europeu: a imprevisibilidade das relações comerciais com os Estados Unidos sob a atual administração pode afetar setores inteiros de forma rápida e com pouco aviso prévio.
Setores como turismo, exportação de produtos industriais, automóveis e agroindústria, todos com presença relevante na economia espanhola e com capacidade de impactar empregos, estavam no radar das ameaças tarifárias americanas. Uma ruptura comercial efetiva teria impacto direto no mercado de trabalho local, incluindo trabalhadores imigrantes.
A alta do Ibex 35 após a declaração de Trump sinaliza que os mercados, por ora, leram o movimento como uma distensão real. Mas analistas ouvidos pela Expansión alertam que a situação permanece frágil: declarações da administração Trump têm se mostrado voláteis, e a Espanha ainda precisará formalizar e cumprir os novos compromissos com a OTAN para consolidar o entendimento.
O que vem a seguir
O governo Sánchez deve detalhar nos próximos dias o cronograma de ampliação dos gastos com defesa, peça central do acordo que sustenta o recuo americano. O Parlamento espanhol, onde o governo não tem maioria absoluta, terá papel decisivo na aprovação dos recursos necessários, o que representa um obstáculo político interno a ser superado.
Do lado americano, a postura de Trump em relação a aliados da OTAN continuará sendo monitorada de perto por Madri e demais capitais europeias. A Espanha saiu desta rodada sem sanções comerciais, mas o episódio deixou claro que a pressão de Washington sobre os compromissos militares europeus não é retórica e pode retornar a qualquer momento.
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