Churrasco, música e Albariño: a festa galega que faria qualquer brasileiro se sentir em casa
Uma imersão pelas tradições, sabores e segredos da Festa do Churrasco de Covelo, no coração da Galícia
Quando a palavra “churrasco” aparece, o brasileiro ergue a orelha. Mas o que acontece todo mês de julho na pequena Covelo, no interior da província de Pontevedra, não é bem o que os filhos do Brasil esperariam encontrar e, ao mesmo tempo, é exatamente aquilo que o coração vai reconhecer. Quase 2.000 quilos de carne assada, praças tomadas por famílias inteiras, música ao vivo e o cheiro da brasa espalhando-se pelo ar da Galícia. A Festa do Churrasco de Covelo é, sem exagero, uma das celebrações mais saborosas, e mais brasileiramente familiares, de toda a Espanha.
Origens e Tradição
Covelo é um município que passa despercebido nos roteiros turísticos convencionais. Encravado entre vales verdes e aldeias de pedra na zona interior de Pontevedra, o lugar vive em ritmo próprio, até que julho chega e o vilarejo se transforma. A Festa do Churrasco é uma das festas patronais mais aguardadas da região, celebrada em torno do Dia de Santiago, em 25 de julho, data que a Galícia inteira trata como feriado máximo, uma espécie de alma coletiva da comunidade autônoma.
A tradição de reunir a comunidade em torno do fogo e da carne assada é muito mais antiga do que qualquer festival organizado. Na Galícia rural, o convívio ao redor da brasa sempre marcou colheitas, festas religiosas e reencontros familiares. O que Covelo fez foi institucionalizar esse rito com maestria: hoje, a organização mobiliza voluntários, associações locais e produtores da região para garantir que os milhares de visitantes saiam de barriga cheia e com vontade de voltar.
E aqui está o ponto que nenhum brasileiro vai querer ignorar: essa cultura do fogo e da carne coletiva não cruzou o Atlântico por acaso. A emigração galega ao Brasil, intensa nos séculos XIX e XX, foi uma das maiores correntes migratórias ibéricas para o país. Os galegos trouxeram na bagagem muito mais do que sotaque: trouxeram o gosto pela brasa, pelo convívio à mesa longa, pelo prazer simples de comer bem com quem se gosta. O churrasco brasileiro, com todas as suas variações regionais, carrega no DNA um pedaço dessa herança.
A Diferença que Faz a Diferença
Antes de chegar a Covelo esperando espetinhos e picanha, vale entender como o churrasco galego se apresenta. Por aqui, a carne não é assada em espetos verticais nem em grelhas altas com carvão de babaçu. O método é a chapa, grandes superfícies de ferro aquecido, sobre as quais bifes, costelas e cortes variados ganham aquela crosta dourada e suculenta por dentro que a Galícia conhece de cor. As porções são generosas, os preços populares e a fila, quando existe, faz parte do ritual.
A carne servida na festa costuma incluir cortes bovinos e de porco criados na própria região, o que garante uma qualidade difícil de replicar fora dali. A Galícia tem tradição pecuária respeitada em toda a Espanha, e a carne bovina galega é considerada entre as melhores do país. Comer em Covelo, nesse contexto, é quase um ato de fidelidade a uma cadeia produtiva que vai do pasto à praça.
O que Experimentar / Como Vivenciar
– A carne, claro. Chegue com fome e sem pressa. Os cortes saem direto da chapa e são servidos com pão artesanal e, dependendo da barraca, acompanhados de pimentos de Padrón assados, pequenas joias verdes que ora são suaves, ora pegam fogo, e que os galegos comem com uma alegria levemente masoquista.
– O Albariño gelado. Nenhum churrasco galego se completa sem o vinho branco da região, produzido com a uva Albariño nas Rías Baixas. Fresco, aromático e com acidez que corta qualquer gordura, ele é o par perfeito para a carne na chapa. Para quem vem do Brasil acostumado a cerveja gelada na churrasqueira, a descoberta é uma das mais agradáveis que a Galícia oferece.
– As barracas de artesanato. A Festa do Churrasco não é só comida. Ao redor da praça principal, artesãos locais expõem cerâmicas, rendas e produtos típicos da zona interior de Pontevedra, uma boa oportunidade para levar para casa algo que não se encontra nas lojas de souvenir de Santiago de Compostela.
– A música ao vivo. Bandas locais e grupos de gaita, a gaita galega, que não é a escocesa, mas tem parentesco sonoro evidente, animam o evento ao longo do dia. O ritmo contagia, e não é raro ver pessoas dançando entre as mesas. Para o brasileiro que acha que samba e forró são manifestações únicas da alegria popular, a muiñeira galega vai ser uma surpresa bem-vinda.
– O entorno de Covelo. Quem vai até lá merece explorar os arredores. O município faz parte da zona do Rio Oitavén e tem trilhas e moinhos históricos que pouco figuram nos guias. Uma caminhada pela manhã antes da festa deixa o apetite ainda mais afiado.
—
Como chegar e quando ir: A Festa do Churrasco de Covelo acontece anualmente em julho, com data próxima ao Dia de Santiago (25/07). O acesso é feito de carro a partir de Pontevedra (cerca de 40 km) ou de Vigo (aproximadamente 50 km). Para quem planeja visitar a Galícia nesse período, vale combinar o festival com a peregrinação ou as festas do Apóstolo em Santiago de Compostela, que acontecem na mesma semana e transformam toda a comunidade autônoma em uma celebração única.
Mais informações sobre turismo na Galícia: [Turismo de Galicia](https://www.turismo.gal)


